Ainda à bem pouco tempo, tu eras um todo em fragmentos espalhados desordenadamente pelo sôpro do vento que me habita. Nada era mais sublime e doce que a tua imagem na parede espelhada para a minha alma, e de onde eu te olhava onde quer que eu estivesse. E nos recantos da minha memória entre o ontem e o agora, eu ainda te vejo, mesmo sabendo que já não estás aqui, e que o sôpro que havia dispersou-se como nevoa de um outono sobre folhas secas caídas na calçada. Trago em mim, ainda, o cheiro adocicado das baforadas do teu cigarro e ainda vejo a fumaça em círculo desmanchando-se no ar, mas sei que tu já não és e eu também não sou, porque o que fomos perdeu-se de nós naquela noite em que partiste. Há uma dor permanente em mim, um cinzeiro na mesa à frente do sofá onde todos os dias te sentavas, e de onde me olhavas a meio riso enquanto eu te contava segredos. Não sei se foi o tempo que passou ou se fomos nós que passámos enquanto o tempo permaneceu. Amo-te, um beijo de saudade. Até já.
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